......No parque, criança ainda, segurando a mão direita de mamãe, de repente quando eu olhava pro sol, todos os pombos alçavam vôo sobre nossas cabeças. O sol estava sendo filtrado pelas aves. Eu podia vê-lo, lindo, impetuoso, os pombos protegiam-me contra os raios que feriam. Pois bem, dentro do sol, tinha outro sol, nesse outro, tinha mais outro. Sem terminar. E quando eu parava de olhar para o sol e me voltava pra mamãe, os pombos pousavam no chão a ciscar as migalhas lançadas por ela.domingo, 29 de novembro de 2009
A infância e seus poderes
......No parque, criança ainda, segurando a mão direita de mamãe, de repente quando eu olhava pro sol, todos os pombos alçavam vôo sobre nossas cabeças. O sol estava sendo filtrado pelas aves. Eu podia vê-lo, lindo, impetuoso, os pombos protegiam-me contra os raios que feriam. Pois bem, dentro do sol, tinha outro sol, nesse outro, tinha mais outro. Sem terminar. E quando eu parava de olhar para o sol e me voltava pra mamãe, os pombos pousavam no chão a ciscar as migalhas lançadas por ela.sábado, 21 de novembro de 2009
Alegria

......E foi assim, com um sorriso no rosto, um pensamento sincero e um andar confiante, revelou ao mundo: estava vivo outra vez. E de novo as coisas davam certo e de novo podia ser cômico; lavava as mãos e as mãos ficavam limpas, outra vez.
......Trouxe para dentro do peito brilhos, confetes, festividades. Lágrimas desciam, de vez em quando, era emoção positiva. Eram lágrimas de olhos alegres. Era um prazer de estar elétrico. Era ausência de ódio. Era um sorriso de bebê. Era o sorriso da mãe que vê o sorriso do bebê.......O dia estava igual ao dia como deveria ser, sempre. O sol não queimava o rosto, o vento não agredia tanto. Os galhos das árvores dançavam silenciosos.
......Sorriu mais uma vez, quando viu sua imagem refletida no azulejo. É que ele nunca fora de azulejo. Sorriu porque se deve sorrir toda vez que se descobre que podia ser outra coisa que não ele mesmo. Ele também era de azulejo, sorriu.
......Sentiu que o dia, naquele momento, era um poema. Curto. Alegre. E outro poema. Curto. Alegre... A vida era aquela alegria de se ler poemas curtos alegres.
......Deitar na grama, andar descalço na grama, alisar com as palmas da mão a grama. Cantar baixinho, olhar pro céu: nuvens em forma de poema; nuvens em forma de alegria; nuvens em forma de bebê sorrindo.
......E foi assim, com um sorriso no rosto, um pensamento sincero, um andar confiante, prometeu guardar dentro de si mesmo, onde ninguém podia roubar, onde nenhuma enchente podia arrastar, onde nada, ninguém, nem ele mesmo, desprezariam aquela sensação de primeiro dia numa roda gigante girando ao lado de um lago limpo e cisnes voando.
......Deitar na grama, andar descalço na grama, alisar com as palmas da mão a grama. Cantar baixinho, olhar pro céu: nuvens em forma de poema; nuvens em forma de alegria; nuvens em forma de bebê sorrindo.
......E foi assim, com um sorriso no rosto, um pensamento sincero, um andar confiante, prometeu guardar dentro de si mesmo, onde ninguém podia roubar, onde nenhuma enchente podia arrastar, onde nada, ninguém, nem ele mesmo, desprezariam aquela sensação de primeiro dia numa roda gigante girando ao lado de um lago limpo e cisnes voando.
......Mas também era aquela sensação de abraço apertado de alguém especial, numa rede balançando levemente na varanda de casa.
......Tava decidido, guardaria tudo, tudo mesmo, para nunca esquecer o dia em que um pequeno bebê dava seu primeiro sorriso, chorando, e a mãe do bebê, sorrindo chorando, e ele mesmo, sorrindo chorando, naquele dia que estava igual ao dia como deveria ser, sempre.
......Tava decidido, guardaria tudo, tudo mesmo, para nunca esquecer o dia em que um pequeno bebê dava seu primeiro sorriso, chorando, e a mãe do bebê, sorrindo chorando, e ele mesmo, sorrindo chorando, naquele dia que estava igual ao dia como deveria ser, sempre.
sábado, 10 de outubro de 2009
Um raio de Sol

......O dia estava nublado. O meu coração batia acelerado, gritando Trovões! Trovões! Um pingo de chuva apareceu deslizando sobre a janela. E eu pensava: Deus, chover seria bom, agora. Depois eu desisti da chuva, isso equivaleria embaçar a janela tão completamente que eu não poderia ver o mundo através dela. E então o sol apareceu iluminando meu rosto. Fechei os olhos, lembrei-me de cenas de um filme: um galho de árvore congelado e o gelo derretendo, pingando no solo, sem pressa, sem bagunça. Era um sol fresco porque o lugar era muito frio. Mas era o sol sobre aquela neve toda. Neve lentamente se transformando em rio. E do alto das árvores, punhados de neve caiam, vencidos pela maleabilidade das folhas em contato com o calor. Fazia barulho. E rápidas e contidas chuvas de neve ali, acolá. Às vezes caia sobre um animal que, sem susto, como já acostumado, balançava a cabeça ferozmente para se limpar.
......Uma nuvem ali próxima vedou meu raio de sol e o dia ficou nublado novamente.
......Uma nuvem ali próxima vedou meu raio de sol e o dia ficou nublado novamente.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Fogo e Noite
......Um dia minha mão será o inferno e lhe queimará. Vou sentir sua dor no fogo do meu pulso. E a tua vida se tornar cinzas do meu desejo.......E nas manhãs de chuva fina, lá fora, tão bonito de ouvir, pingos de chuva colidindo no telhado, não deixarei trovões misturarem as emoções. Tudo será uma promessa que se cumpre na hora exata. Flores perfeitas que nascem de ventres livres. E a vida que se perde com um piscar de olhos, será a mesma que renasce no futuro das coisas.
......Um dia tua mão será o inferno e me queimará. Vou sentir minha própria dor e as cinzas do meu corpo voar sobre um dia de chuvas e trovões.
......E nas noites de solidão, o mundo se abrindo em gritos de desespero. A selva de corações partidos se alarga na imensidão de lágrimas, congelando o fogo, que é a vida de todas as pessoas.
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Entre o comum e óbvio
......Houve aquele momento, gasto no tempo, trágico de tão comum, rápido, mais rápido do que a palavra rapidez pudesse exprimir. E nesse momento, um fio de vida, de esperança, de luminosidade tamanha, trouxe um sorriso de nada e um silêncio de palavras.......Nesse instante, nada aconteceu, visivelmente. Porém, no fundo de um sentimento antigo, agitou-se com naturalidade uma dobra de amor em sucessivos e estáticos soluços. Era pra ter dito "tchau", era pra ter feito uma loucura, eu podia destruir o mundo sem destruir a mim mesmo. E de tudo que se viu no corpo... o corpo enfim falou, porque antes só gritava.
......E os olhos e a boca? Esses olhos de tristeza e de cansaço, mas que não eram tristeza nem cansaço, não se engane, eram olhos de felicidade disfarçada, afinal.
sábado, 14 de março de 2009
Em Reforma
......Não, eu não pareço. Sou isso mesmo que você está vendo.
......Essa é minha cara de cansaço, de tristeza, de alegria, de entusiasmo. É que tudo tá tão misturado e condensado que foi preciso uma crosta bem grossa para conter toda essa agitação.
......Estou passando por uma espécie de reforma interior, reconstrução. Mas é reforma boa, daquelas que quando se ganha um dinheiro extra, decide reformar o apartamento, pintar as paredes. Pois é, ainda estou sob plásticos e jornais velhos.
......Ainda assim, sou isso mesmo, porque aprendi que podemos ter muitos rostos, muitas olhos, muitas bocas. Somos tantos em nós mesmos, embora usemos pouco do que podemos ser.
......Essa é minha cara de cansaço, de tristeza, de alegria, de entusiasmo. É que tudo tá tão misturado e condensado que foi preciso uma crosta bem grossa para conter toda essa agitação.
......Estou passando por uma espécie de reforma interior, reconstrução. Mas é reforma boa, daquelas que quando se ganha um dinheiro extra, decide reformar o apartamento, pintar as paredes. Pois é, ainda estou sob plásticos e jornais velhos.
......Ainda assim, sou isso mesmo, porque aprendi que podemos ter muitos rostos, muitas olhos, muitas bocas. Somos tantos em nós mesmos, embora usemos pouco do que podemos ser.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
A Insônia
......À noite, eu sentia o coração batendo na cabeça como martelo bate, inúmeras vezes, na cabeça de um prego a penetrar superfície impenetrável. E doía. Mas era uma dor que eu não sentia, era uma dor imaginada. Era uma dor, por mais que sem dor, não me deixava dormir porque imaginar era pior do que ser. Levava dias, semanas, meses em um único quarto de hora pensando no nada. E nada vinha; nem sono, nem bocejo, sonhos. Nem um pesadelo sequer dando-me a dimensão de queda e acordando-me com espasmos físicos, seguido da percepção de estar vivo e são.
......Nunca me lembro quando acaba. A gente nunca lembra. Acorda no dia seguinte, ou, no meu caso, no mesmo dia e o dia exige o esquecimento de tudo desnecessário para viver aquele dia. Embora eu soubesse da amnésia temporária, embora eu soubesse que a noite já vinha vindo e não era possível alargar o dia; embora eu soubesse, eu não sabia até a noite chegar e me pôr a par de tudo. E tudo era caudaloso e quente, mil graus de quentura para que a calda pudesse assim ser chamada de calda e contrariasse a solidez que surge através do frio lá de fora, mas não surge.
......De algum modo, o ser que me segue para onde eu vá, esse ser que propriamente não existe, mas existe, escolheu a noite pra me ver sofrer. Sofrimento calado sem ter do que sofrer é talvez o pior dos sofrimentos porque não há lágrimas. Há uma pura inquietação e artificialismo. O escuro é artificial, pois se, ao ligar a luz, fica claro. Assim também como o claro ao desligá-lo fica escuro.
......O corpo gira na cama, o lado direito e o esquerdo não se diferencia, uma vez que são requisitados conforme o corpo gire. Corpo girando aleatoriamente. Ou não, se você é daqueles que entendem a dinâmica do corpo. O corpo insone. É engraçado isso. O corpo insone é histérico, fala mais do que o dono do corpo, já que o dono refugia-se no pensamento, deixando o corpo viver a sua vida de corpo.
......Lembranças, fatos passados, projeções pro futuro, são também estruturas artificiais, pois surgem da obrigação de se ter algo pra fazer. Refletir é uma desculpa, e desculpa boba. Como se dissesse estou aproveitando o tempo acordado para pensar, para adiantar a vida. Mas como? Se no mesmo instante que se pensa, se esquece para dar lugar a outra coisa pensada.
......Há momentos, a boca seca clama por água, não que fosse importante. É possível dormir com a boca seca; quando o sono bate de verdade é possível dormir sem boca. Eu sei, quando o sono bate é possível dormir sem muitas coisas. Mas a água é mais uma desculpa, desejo artificial. Traz a falsa sensação anterior de que bebendo se dorme. Grande placebo inútil.
......Há momentos, televisão é opção. Mas o que se ver na TV não é visto de verdade, pois se lhe pergunta o que acabaste de ver, você, perplexo, responde, não vi, mas os meus olhos viram, talvez se eles falassem lhes dissessem o que viram, mas olhos não falam, pelo menos com palavras que é o código a que muitos se aprisionaram; quem fala é a boca, mas a boca não tem olhos, infelizmente. Então a coisa vista na TV fica para sempre perdida, esquecida, segredo sem chave.
......E, de repente, jogado na cabeceira, um livro. Na verdade, o livro, o livro de uma bruxa má e impiedosa. Agora sei, culpada, revelou-me sem me dizer ao certo. Disse-me sem me ensinar, porque ela não ensina, ela apenas diz. Contou-me absolutamente nada e por isso me segredou tudo. Falou que eu era noite e que só na noite eu poderia viver de um modo particularmente meu.
......Decido pôr fogo no livro, como outrora, sem grandes razões, sem grandes esperanças, se podia pôr fogo em bruxas. E assim enfim ela queime, na sua mais primeira vida divina.
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Sandro Sorte
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Sandro Sorte
(Postagem dedicada à escritora Clarice Lispector)
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
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